Aos olhos dos brasileiros, e especialmente aos milhões de donos de carros bicombustível, a imagem da indústria do etanol de cana de açúcar alterna em uma velocidade mais rápida do que podem acelerar estes modernos veículos “sustentáveis”. Quando estão fornecendo combustível a preços competitivos com a gasolina, os produtores são heróis. No entanto, quando os preços sobem por falta de oferta, todos querem saber o que há de errado com as promessas de energia limpa e barata.
O ano de 2011 foi especialmente complicado para as usinas produtoras de etanol. Uma série de fatores de mercado evidenciaram que o setor tem problemas que começam na produtividade dos canaviais e se estendem até a política de combustíveis do governo. Pressionado pela alta demanda por açúcar, os produtores produziram menos etanol em 2011 elevando o preço ao consumidor no postos de abastecimento.
Uniu-se a isso a decisão do governo Dilma Rousseff de manter o preço da gasolina estável mesmo com as oscilações no barril de petróleo. A estratégia protege os brasileiros de inflação , mas acaba tirando a competitividade do álcool, explica o consultor André Nassar, do Instituto Ícone, um think tank especializado em análise commodities agrícolas. “A questão ao final é que está faltando cana”, diz ele, direto ao ponto. Atualmente, a gasolina brasileira conta com a adição obrigatória de 20% a 25% de biocombustível.
A constatação de que a oferta de cana não deverá atender a demanda por etanol combustível parece absurda no momento em que um dos maiores sonhos dos usineiros se tornou realidade: a abertura do mercado americano. Na virada do ano, o governo Obama passou a implementar a lei aprovada ainda sob a batuta de Bush (2007 Energy Independence Act) que prevê o consumo de 36 bilhões de galões de etanol até 2022, quase o triplo do que é consumido atualmente.
A perspectiva de lucro obviamente deixou os produtores brasileiros animados. O presidente da União da Indústria da Cana-de-Açúcar (UNICA), Marcos Jank, afirmou, em uma entrevista à revista britânica Economist que este era um momento esperado há 30 anos. A mesma reportagem, no entanto, evidenciou o desafio do setor em ultrapassar barreiras tecnológicas ao aumento de produção de cana.
Gigante paralisado?
Atualmente o Brasil é o segundo maior produtor de etanol do planeta, atrás apenas dos Estados Unidos. Com 430 unidades de produção, sendo a maioria concentrada na região conhecida com Centro-Sul, a produção deste biocombustível gera 1,2 milhão de empregos e gera recursos da ordem de 48 bilhões de dólares por ano segundo informações do setor .

O que parecia impossível aconteceu: a partir de 2010, o Brasil reduz suas exportações de etanol de cana de açúcar e passa a importar a matéria prima, principalmente dos Estados Unidos que utiliza milho em sua produção. Crédito: Única, apresentação de Marcos Jank
Esta pujança não impediu que desde 2009, quando a crise econômica dificultou o acesso ao crédito, o setor tenha passado a perder fôlego. Em 2011, a produção de cana depois de anos subindo a um ritmo de 10,4%, caiu a 550 milhões de toneladas, deixando 150 milhões de toneladas de capacidade ociosa nas usinas. Por mais inusitado que possa parecer, o Brasil passou de exportador a importador de etanol. Veja gráfico abaixo
Este quadro não significa que o setor deixou de investir em inovação, diz o consultor de tecnologia da UNICA, Alfred Swarcz. Ele cita programas de pesquisa para a criação de novas variedades de cana com potencial de maior produção por hectare plantado, por exemplo. “Tecnologia se parar morrer, sempre tem que avançar. Existem inúmeras iniciativas, mas nenhuma delas prontas para resolver a necessidade de maior oferta”, avisa .
A maior expectativa se concentra no chamado etanol de segunda geração, que permitiria o aproveitamento do bagaço de cana e da própria palha. Hoje estes insumos são queimados para gerar energia ou deixados no próprio campo onde a cana foi colhida. As estimativas é que a produção poderá tomar escala comercial em 8 anos elevando a produtividade da cana de açúcar em 20% a 30%.
Enquanto se espera pelo avanço tecnológico, André Nassar do Instituto Ícone, acha pouco provável que o Brasil consiga atender toda a demanda interna e externa por álcool anidro, aquele que se pode misturar na gasolina. A taxa de renovação dos canaviais continua inferior a de anos anteriores, levando a crer que faltará cana para abastecer os milhões de carros novos movidos a etanol, enfurecendo mais uma vez milhões de consumidores que apostaram na promessa de combustível barato e limpo “O setor vai perder participação no mercado, se conseguira recuperar quando tiver maior capacidade de produção, ainda é cedo para dizer”, pondera Nassar.
Foto no alto: No Estado de São Paulo, os canaviais destinados à produção de açúcar e álcool se estendem por quilômetros a fio, criando a impressão de um grande tapete verde.
Gustavo Faleiros nasceu em São Paulo e estudou jornalismo na Pontíficia Universidade Católica de São Paulo. Além de atuar como um dos editores do site de jornalismo ambiental O Eco, teve reportages publicadas no Brasil, como Valor Economico e Folha de Sao Paulo. Seus artigos também foram destaque nos sites da Scientific Americas, do jornal britânico Guardian e o projeto China Dialogue.

