Cerca de um quinto das espécies do planeta habitam o Brasil. Sem dúvida, é o País com a maior diversidade biológica. Elas estão distribuídas em um mosaico de biomas que vai da aridez da Caatinga à exuberância da Amazônia. O zoólogo Thomas Lewinsohn, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), estima que, das 1,8 milhão de espécies brasileiras, apenas 210 mil já foram descritas pela ciência. A maioria dos pesquisadores acredita na impossibilidade prática de se conhecer com exatidão uma riqueza biológica tão grande, mas há consenso quanto à importância de se identificar o maior número de espécies possível, antes que muitas delas desapareçam de forma irreversível. É uma corrida contra o tempo. A Mata Atlântica, por exemplo, um dos biomas brasileiros mais biodiversos e ameaçados, ocupa hoje menos de 8% da sua área original.
Nesse esforço para revelar a biodiversidade brasileira, nenhuma iniciativa teve tanto sucesso quanto o Programa Biota-Fapesp. Financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), uma das principais agências públicas de fomento à ciência, o programa investiga a diversidade biológica paulista. O Estado de São Paulo está situado em uma área de transição de dois biomas – Mata Atlântica e Cerrado – com enorme riqueza de ecossistemas. É, no entanto, o Estado que apresenta os maiores índices de urbanização e industrialização, com todas as consequências ambientais que tais processos trazem consigo.
Criado em 1999, o Programa Biota-Fapesp está organizado como um instituto virtual que congrega cerca de 200 pesquisadores e 500 alunos de pós-graduação espalhados por 16 instituições de ensino e pesquisa. Sem contar 50 colaboradores de outros Estados e cerca de 80 do exterior. No ano passado, a Fapesp e a National Science Foundation, dos Estados Unidos, manifestaram, durante um encontro em Washington D.C., o interesse de realizar projetos comuns no âmbito do Biota-Fapesp e do Dimensions of Biodiversity, programa da agência americana análogo ao brasileiro. Em janeiro, a cooperação concretizou-se em um edital que oferece até US$ 4 milhões para cada grupo de cientistas brasileiros e americanos que queiram investigar juntos a biodiversidade.
Nos primeiros dez anos do projeto, a Fapesp investiu R$ 82 milhões. Em 2010, a fundação renovou seu apoio ao programa por mais uma década, garantindo investimentos até 2020. “O Biota-Fapesp tornou-se o primeiro programa científico brasileiro com investimento regular por mais de dez anos consecutivos”, afirma o botânico Carlos Alfredo Joly, coordenador da iniciativa e pesquisador da Unicamp. Joly seguiu os passos do pai, um pesquisador de prestígio no estudo da biodiversidade brasileira. O ficólogo Aylthon Brandão Joly realizou os primeiros trabalhos sistemáticos sobre algas no País, nos anos 50.
O Biota-Fapesp já identificou 1.766 novas espécies, a maioria microrganismos (64%). Mas as descobertas incluem 93 vertebrados e 564 invertebrados. A compreensão de animais e plantas já conhecidos também melhorou bastante. Um artigo publicado em janeiro na Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), por exemplo, descreve a existência de “abelhas-soldado”, fisicamente adaptadas para defender colmeias de jataí, uma pequena abelha sem ferrão que produz um mel muito apreciado no País. Entre formigas e cupins, a existência de castas especializadas e fisicamente adaptadas a uma determinada função é bem conhecida e descrita na literatura científica. Mas, entre abelhas, o consenso mundial era de que só a rainha tinha uma forma distinta. O trabalho da PNAS constitui apenas uma pequena e recente amostra – de um universo de mais de 1,1 mil artigos já publicados – dos frutos do programa.
Contudo, os resultados não são apenas acadêmicos. Seis decretos governamentais e 13 resoluções citam orientações do programa. O biólogo Ricardo Ribeiro Rodrigues, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq-USP) estuda as florestas paulistas no Biota-Fapesp. Ele tenta desenvolver métodos de conservação para a vegetação preservada e de restauração para florestas já degradadas.
Rodrigues recorda o impacto das Diretrizes para Conservação e Restauração da Biodiversidade do Estado de São Paulo, um livro publicado em 2008 com base no conhecimento obtido até então pelo Biota-Fapesp. “Sugeríamos a criação de 25 unidades de conservação no Estado”, recorda o biólogo. “Já foram criadas 15.” O estudo também apontava zonas que mereceriam ter sua vegetação original reconstituída por sua importância ecológica. “Esse mapa é usado hoje pelo governo estadual para determinar quais regiões as empresas podem reflorestar para compensar danos à natureza.”
Agora, ao valor científico e ambiental da pesquisa sobre a biodiversidade, os cientistas querem agregar o valor econômico. Para isso, criou-se, em 2003, o subprograma Rede Biota de Bioprospecção e Bioensaios ou, simplesmente, Bioprospecta. O objetivo da rede é encontrar moléculas com aplicações industriais nos organismos estudados pelo programa Biota-Fapesp.
A química Vanderlan Bolzani, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), coordena a iniciativa. Ela se anima ao falar de algumas pesquisas. Nas folhas de uma planta brasileira chamada cássia-do-nordeste, a equipe de Vanderlan encontrou um possível inibidor de acetilcolinesterase. A substância é promissora para o tratamento de doenças neurodegenerativas, como o Alzheimer. “E, recentemente, percebemos que os cachos de flores amarelas da cássia-do-nordeste guardam uma quantidade ainda maior desta substância: de um quilo de flores, conseguimos extrair cinco gramas”, recorda. Vanderlan vê a natureza como um imenso laboratório: além de apresentar um rol incomensurável de substâncias, oferece ótimas ideias sobre o melhor método para as sintetizar em laboratório.
Há dois anos o governo federal resolveu lançar uma iniciativa análoga ao Programa Biota-Fapesp, mas de âmbito nacional. Em parceria com as fundações de amparo a pesquisa dos Estados, criou o Sistema Nacional de Pesquisa em Biodiversidade (Sisbiota-Brasil), inspirado no modelo paulista – e contando com a coordenação de pesquisadores como Joly e Vanderlan. O primeiro edital do programa, divulgado em 2010, ofereceu R$ 52 milhões para serem gastos em três anos. Os resultados devem aparecer na próxima década.
Foto no alto: Adela Kang/Txchnologist
Alexandre Gonçalves atua como repórter de Ciência no jornal “O Estado de S. Paulo” há quatro anos. Seus principais interesses são biotecnologia e política científica. Já trabalhou como engenheiro de software na IBM e em outras empresas de informática.


