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Pai da Aviação do Brasil

Se perguntar a um americano quem inventou o avião a resposta será “os irmãos Wright.” Faça a mesma pergunta a um brasileiro e a resposta será “Alberto Santos-Dumont“.

Para este nome, os norte-americanos responderiam: “Quem?”

As diferentes respostas derivam de uma controvérsia que data dos primórdios da era da aviação.

No outono de 1906, Santos Dumont pilotou seu14bis, um bimotor com hélice propulsora (tipo pusher, em inglês) e asas fixas (tipo canard), por uma distância de cerca de 200 pés a uma altura de cerca de 10 pés ante uma grande multidão de parisienses. Este evento, bem documentado, foi o primeiro vôo checado na Europa por um aparelho “mais pesado do que o ar”, pelo organismo criado para estabelecer das regras de aviação, a Federação Aeronáutica Internacional. A façanha garantiu ao aviador brasileiro o prêmio Archdeacon , de grande prestígio, por ser a primeira pessoa a pilotar um avião de asa fixa mais de 25 metros. Meses mais tarde, Santos Dumont ganhou o Prêmio do Aeroclube da França no valor de 1.500 francos (300 dólares) por ter percorrido por primeira vez 100 metros.

Alberto Santos-Dumont: Bon vivant. Divulgação Dominiopublico.gov.br

Já conhecido por ser o pioneiro da aviação pelo fato de ter previamente construído e voado o primeiro dirigível movido a gasolina assim como por seu estilo de vida aventureiro, Santos  Dumont foi aclamado como o “Pai da Aviação” pelos brasileiros. “Santos Dumont é um dos heróis mais importantes da história brasileira”, diz o conterrâneo Bernardo Malfitano, engenheiro aeroespacial da Boeing e considerado um geek da aviação. “O aeroporto doméstico do Rio de Janeiro recebeu o nome do aviador, e em cada aeroporto do Brasil existe uma placa dedicada a ele. Muitas vezes, ainda, um busto em sua homenagem”, observa ele.

O quê aconteceu com Wilbur e Orville Wright? “Na época dos vôos de Santos Dumont em Paris, em 1906, os irmãos Wright realmente ainda não tinham se revelado ao mundo”, conta Tom D. Crouch, curador- sênior de aeronáutica no Museu Nacional do Ar e do Espaço do Smithsonian Institute. Havia apenas relatos de imprensa não confirmados e rumores de seus primeiros vôos na Kitty Hawk (Kill Devil Hills, NC) em 1903, notícias que logo desapareceram.

“Os europeus viram Santos Dumont voar antes de os irmãos Wrights terem ido para a Europa, então é natural que ele fosse amplamente comemorado”, diz Crouch, Cavaleiro da Ordem de Santos-Dumont. “Dois anos mais tarde, em 1908, quando os irmãos Wright viajaram para a França e realizaram demonstrações públicas de seu, melhorado, Flyer, eles surpreenderam o público ao fazer manobras nunca antes efetuadas por outros aviões.”

Argumentos além da precedência

Os defensores da reivindicação da precedência de Santos Dumont argumentam o que poderia ser denominado um contra-argumento legalista. “Os vôos do 14bis foram as primeiras demonstrações públicas de um avião decolando de uma pista de pouso com um trem de pouso fixo e retornando com sua própria força em condições de clima calmas “, diz Malfitano, referindo-se ao fato de que o avião dos irmãos Wright usou um monotrilho e uma catapulta de lançamento de peso assim como enfrentou fortes ventos, para chegar no alto.

Mas Crouch chama esse argumento de absurdo. “Todo mundo decolou a favor do vento. Seria uma loucura tentar decolar contra o vento nessas máquinas leves. E a catapulta foi usada porque as rodas não funcionavam na areia. Os irmãos Wright poderiam ter facilmente adicionado rodas “, diz ele.

Crouch complementa que “o 14bis não tinha pouco controle do eixo de rotação. Ele podia voar quase só em linha reta. Para dar volta, você tinha que ficar sob a parte de baixo da aeronave com o leme. “O Flyer, pelo contrário, tinha controle de direção do vôo (o que dá um controle ao piloto sobre o eixo de rotação, o ângulo de arfagem e o giro).

Pioneiro do dirigível

Apesar da discórdia sobre quem voou primeiro, não há dúvida de que Santos Dumont é uma figura importante na história da aviação. O filho de um rico cafeicultor do Brasil, Santos Dumont era “absolutamente apaixonado por voar”, diz Crouch. “E suas façanhas famosas, seu carisma, sua atitude extremamente extravagante e sua obsessão pela aviação fez dele uma figura inspiradora. Ele entusiasmava as pessoas com a idéia de voar.” Ele organizava jantares em casa, onde havia suspendido do teto a mesa de jantar e as cadeiras para que os hóspedes tomassem seus lugares usando escadas”, conta Crouch. Além disso, acredita-se que ele também popularizou o uso de relógio de pulso nos homens.

“Mesmo antes de construir o 14bis, ele foi pioneiro dos “mais leves que o ar” através da construção e vôo de onze aeronaves dirigíveis”, diz Malfitano. “Ele sobrevoava os bulevares de Paris na altura do último andar em uma de suas aeronaves, geralmente pousando o dirigível na frente de um café de moda.”

No final de 1901, Santos Dumont pilotou o seu dirigível Nº6 desde o Parque Saint Cloud ,nos subúrbios de Paris, até a Torre Eiffel e voltando: um total de 11 quilômetros em menos de meia hora, o que lhe rendeu a Copa Deutsch de la Meurthe, com um prêmio de cem mil francos. O aeronauta vitorioso ganhou o reconhecimento como uma das principais celebridades da cidade, quando ofereceu um quarto do prêmio `a sua tripulação e o resto aos pobres de Paris. “Ao fazer isso, ele capturou a imaginação do mundo”, diz Crouch “, provocando na Europa e nos EUA uma onda de homem dos dirigíveis e temerário dos aeronautas nos anos seguintes .”

Herói Nacional

“O desenho final de Santos Dumont foi o monoplano Demoiselle, o precursor do moderno ultra-leve que se tornou bastante popular”, diz Malfitano. “Ele usou o Demoiselle como seu transporte pessoal. E ao contrário do secretismo dos irmãos Wright, ele voluntariamente deixo aos outros copiarem seu desenho.”

Alberto Santos Dumont retornou ao Brasil como herói nacional em 1928. Após sua morte, quatro anos mais tarde, sua casa em Petrópolis foi transformada em museu.

Foto no alto: Cartão postal do 14 Bis

Steven Ashley colabora como editor da Txchnologist. Ele tem trabalhos publicados na Scientific American, Popular Science e Technology Review da MIT, entre outras.

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