Há oito anos, o então professor do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP) José Fernando Perez perguntou aos alunos: “Vocês sabiam que muitos estudantes do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts, na sigla em inglês) têm dificuldade para concluir o doutorado porque estão ocupados com as empresas que criaram? E vocês? Quantos já pensaram em abrir sua própria empresa?” Como resposta, o físico recebeu o olhar perplexo dos alunos.
Naquele mesmo ano, Perez deixou a USP e a diretoria científica da Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) para fundar a Recepta Biopharma, primeira – e, até agora, única – empresa brasileira a realizar um teste clínico de fase 2 de uma terapia para câncer. “Não temos a cultura do empreendedorismo na universidade”, diagnostica Perez. E sua observação não vale só para os alunos. “Nos EUA, alguns professores deixam institutos de pesquisa ou universidades quando descobrem algo que pode se tornar um produto competitivo. Assim surgem as chamadas startups que dão um enorme dinamismo à economia e fomentam a inovação. No Brasil, praticamente ninguém se arrisca a deixar seu cargo na universidade”, afirma o físico, ele mesmo uma exceção à regra.
Desde 2009, Ronaldo Mota atua como secretário nacional de Desenvolvimento Tecnológico e Inovação do Ministério da Ciência e Tecnologia. Ele concorda com o diagnóstico de Perez e lamenta “que os estudantes brasileiros mais brilhantes tenham muitas vezes como meta passar em um concurso público”. Ele acredita que, “se o Estado voltar seus investimentos para pessoas com esse objetivo, o futuro será um desastre”. “O foco deve ser os jovens que estão dispostos a empreender”, afirma Mota, que já está com as malas prontas para deixar o ministério. Ele foi convidado para assumir uma cátedra na Universidade de Londres, onde pretende pesquisar justamente como despertar nos estudantes o ânimo de construir seu próprio futuro através de um negócio próprio.
Mota, que já lecionou na Universidade Federal de Santa Maria, recorda que “empreendedorismo” já foi considerado um palavrão no âmbito universitário. “O estigma ainda não desapareceu totalmente, mas já melhorou bastante”, afirma. “Hoje, o dono de uma grande empresa pode ser convidado para palestrar para os alunos de uma universidade pública.”
Um balanço da ciência brasileira publicado em dezembro de 2010 na revista Science sugere a causa da grande aversão à iniciativa privada nos meios universitários: a ditadura, que perdurou por 20 anos e só terminou em 1984, fez com que as universidades se tornassem redutos de oposição política e compreensão marxista. “Nós nos isolamos das grandes empresas, que apoiaram os militares. Eles não podiam vir à universidade, que se tornou fechada, hermética. Agora, isso precisa mudar”, afirmava no artigo a pró-reitora de Pesquisa da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Maria Bernardete Cordeiro de Sousa.
O gerente-executivo de Políticas Industriais e Inovação da Confederação Nacional da Indústria, Paulo Mol, reconhece o impacto negativo do estigma da iniciativa privada. Ele é um dos criadores do Movimento Empresarial pela Inovação. Mol pondera que as universidades possuem uma agenda diferente das empresas, normalmente relacionada à pesquisa básica, sem compromisso com o valor de mercado das descobertas e até mesmo com sua futura aplicação. “Qualquer investimento sério em inovação deve mirar, portanto, o setor produtivo”, considera. “Mas os mecanismos ainda estão muito atrelados ao modo como a Academia funciona. A Finep (principal órgão para financiar a inovação no setor privado, ao lado do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), por exemplo, lança editais para distribuir o dinheiro… um instrumento muito comum para pesquisadores de universidades, mas completamente fora do cotidiano dos empresários.”
Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor-científico da FAPESP, uma das principais agências públicas de financiamento à pesquisa no Brasil, acredita que não é papel primordial da universidade produzir patentes para as empresas. “A universidade deve fazer pesquisa básica e formar quadros para trabalhar nas empresas”, afirma Brito Cruz. “O problema é que as empresas, muitas vezes, não investem em centros de pesquisa e desenvolvimento.” Ele acredita, no entanto, que a questão não é somente cultural: o ambiente macroeconômico do País – com o câmbio valorizado, uma carga tributária excessiva e a burocracia – tornam proibitivo qualquer investimento em inovação que, por sua própria natureza, é uma aposta de risco. Mol concorda: “É mais barato abrir um centro de pesquisa e desenvolvimento na França do que no Brasil.”
Em 2005, o pesquisador Osvaldo Augusto Sant’Anna, do Instituto Butantã, apresentou em um simpósio resultados preliminares de um estudo sobre o uso da sílica nanoestruturada como veículo para administração de vacinas. A farmacologista Regina Scivoleto, que se aposentara da USP, estava na plateia. Ao deixar a universidade, Regina tinha uma clara ideia do abismo que separa a pesquisa do desenvolvimento de produtos no País. Por isso, decidiu tornar-se alguém que identifica oportunidades e constrói pontes entre a pesquisa na academia e a indústria. Conversou com o pesquisador do Butantã no fim da palestra e se comprometeu a colocá-lo em contato com o Laboratório Cristália. Cumpriu sua promessa. O presidente do Cristália, Ogari Pacheco, ri ao relatar a surpresa do pesquisador do Butantã quando soube que sua empresa financiaria o projeto. “Ele me disse: ‘você é um ET”, recorda. “(Sant’Anna) já tinha batido em outras portas antes, sem resultado.”
Para Mota, colaborações fecundas como a de Sant’Anna e Pacheco estão se tornando cada vez mais comuns. “A fotografia atual da ciência brasileira ainda não é suficientemente boa… os dados concretos não apontam uma explosão de inovação”, reconhece Mota. “Mas já é possível perceber uma tendência de mudança.” Ele cita, por exemplo, o aumento no volume anual de recursos para linhas de crédito da Finep: de pouco mais de R$ 1 bilhão, há dois anos, para R$ 5 bilhões. “E, mesmo assim, a demanda por financiamento é maior do que a oferta. Precisamos lembrar que a fotografia que temos diante dos olhos é só um quadro de um filme que ainda não sabemos como vai terminar. E há razões para crer que pode ter um final feliz.”
Foto no alto: Praça do Relógio gaf.arq
Alexandre Gonçalves atua como repórter de Ciência no jornal “O Estado de S. Paulo” há quatro anos. Seus principais interesses são biotecnologia e política científica. Já trabalhou como engenheiro de software na IBM e em outras empresas de informática.
