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Favelas Conectadas

O lixo se acumula nas ruelas, a luz é conectada ilegalmente, água e saneamento ainda estão por vir. Mas internet, como foi com a televisão décadas atrás, isso não se passa sem. Quem pensa que o povo da favela está fora da rede muito se engana.

Aqueles que não têm acesso à internet em casa – ainda a maioria dos moradores – encontram conexão nas lan houses locais. Tratam-se de centros com computadores que conectados `a web. Na década passada, estes estabelecimentos multiplicaram-se nas favelas assim como no país, consolidando-se como o principal meio de acesso à internet.

O principal público usuário é jovem, de 14 a 25 anos, e se conecta principalmente para se comunicar e integrar redes sociais. Mas as lan houses também servem para a realização de pesquisas escolares, o acesso a ferramentas de governo eletrônico, serviços bancários e busca de emprego, entre outros.

Estima-se que 32 milhões de pessoas acessem a internet de 107 mil lan houses espalhadas pelo Brasil. Este número foi concluído pela pesquisa feita em 2011 pela consultoria Plano CDE, focada nas classes C, D e E, em parceria com a CDI Lan, empresa social ligada à ONG Comitê para Democratização da Informática.

Fiação para internet se amontoam em uma favela/Flickr - usuário le dieu

Segundo o Comitê Gestor da Internet no Brasil, em 2005, 18% de todos os acessos no país eram feitos em lan houses; em 2007, chegou a 49%. De lá para cá, entretanto, o índice foi aos poucos caindo, até que em chegou a 35%. O acesso em escolas (públicas e particulares) é feito por 14% dos usuários.

Negócios informais

Marcel Fukayama, diretor de operações do CDI Lan, projeta que, em 2012, o percentual de usuários de lan houses cairá ainda mais, para pelo menos 30%. O número desses estabelecimentos no país deverá ficar, então, entre 80 a 100 mil. Ele atribui a redução ao crescimento do acesso através dispositivos móveis, como smartphones e tablets, e às dificuldades enfrentadas pelos micro-empreendedores, como a formalização e gestão de negócio, segmento no qual o CDI Lan atua.

De acordo com Winston Oyadomari, do Centro de Estudos das Tecnologias da Informação e Comunicação, além dos problemas de gestão de um modelo de negócio que começa a dar sinais de esgotamento frente a uma cenário de barateamento dos computadores e de oferta de planos mais baratos de acesso à internet, os empresários penam com a incompreensão dos governos e autoridades locais, que ao longo dos anos desenvolveram uma percepção de lanhouses como estabelecimentos dedicados a jogos eletrônicos e não como espaço de inclusão.

Luiz Fernando Moncau, advogado e pesquisador da Fundação Getúlio Vargas (FGV), critica as restrições jurídicas aos empreendimentos, que muitas vezes inviabilizam a formalização dos negócios:

“Existe uma indisposição legislativa, como a lei, no Rio, que proibia a existência de lan houses a menos de um quilômetro de escolas. Os estabelecimentos então se registravam como outra coisa ou não se registravam. Essa lei caiu graças a ações da FGV e do CDI Lan, mas os preconceitos ainda movem o legislador e o poder público, que criam leis e normas inadequadas à realidade de estabelecimentos mínimos, como as leis de São Paulo que exigem acesso para deficientes e móveis ergonômicos”.

Conexão social

Além da popularização dos smart phones, mais um motivo de encolhimento das lan houses seria o lançamento do Plano Nacional de Banda Larga, que barateia o acesso. Moncau acredita, entretanto, que as lan houses continuarão a existir nas favelas mesmo com o crescimento do acesso doméstico:

“Não é porque a pessoa tem internet em casa que deixará de ir na lan. Ela é um espaço de interesse público importante num lugar onde não há presença do estado, espaços de lazer ou esporte. A internet oferece um pouco de cada coisa. A lan é um espaço de socialização, onde as pessoas vão para estudar e encontrar amigos.”

Rocinha favela/Flickr usuário seier+seier

Para Pamella Passos, professora do Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro (IFRJ), que desenvolve pesquisas em lan houses no bairro de baixa renda Acari e no morro Santa Marta, favela no bairro de Botafogo, as lan houses são um espaço multipropósito com importante potencial cultural, educativo e de sociabilidades. “As lan houses nas comunidades, além de desempenhar relevante papel de inclusão digital, permitindo o acesso à rede pelas classes C, D e E, consolidam-se como espaço de difusão de saberes, coletivização de habilidades e compartilhamento de produções culturais e práticas sociais”, afirma.

O case Rocinha

Na Rocinha, maior favela da América Latina, que ocupa um morro de um bairro nobre do Rio de Janeiro, cerca de 35 lan houses fecharam nos últimos dois anos hoje são 40. Este foi o levantamento feito desde 2009 pela Riosoft, uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip) voltada para o fortalecimento do mercado de Tecnologia da Informação.

“Há um movimento de redução bastante violento”, diz Marcos Neme, consultor da Riosoft. Ele conta que um decreto da Prefeitura do Rio proíbe que haja, em favelas, “casas de diversão” – categoria na qual são incluídas as lan houses. Mesmo assim, observou-se um aumento na formalização dos estabelecimentos: em 2009, apenas 3,8% das 35 lan houses pesquisadas declararam ter CNPJ, registro oficial de empresas. Em 2010, das 14 pesquisadas, 21,4% eram formais. Já em Copacabana e no Centro 100% dos estabelecimentos estudados pela Riosoft tinham CNPJ desde 2009.

Foto no alto: Uma LAN house/Flickr – usuário WikiMapa

Marina Lemle é jornalista pós-graduada em Divulgação da Ciência, da Tecnologia e da Saúde pelo Museu da Vida/Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

 

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