Aos 24 anos, Marco Vanossi é um jovem seguro de si que sabe como se vender. Mais importante ainda: ele sabe como vender suas idéias, especificamente, um aplicativo de reconhecimento de imagem chamado Clickpic, que, mesmo sem ter sido lançado, já lhe permitiu ser convidado a uns dos programas de entrevistas mais importantes da televisão brasileira, o Programa do Jô.
O jovem tirou gargalhadas de seu anfitrião, Jô Soares, e da platéia, ao tiraruma foto de uma imagem de jornal, que mostrava um jogador de futebol marcando um gol, e imediatamente a resgatou o vídeo deste gol no YouTube em seu Tablet. A expectativa é que a Clickpic possa atrair um investimento inicial de mais de R$500,000.
Vanossi, inteligente e empreendedor, sente-se em casa tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil. Ele é o típico brasileiro pertencente a uma nova geração de inovadores tecnológicos que estão fazendo o Vale do Silicio (Silicon Valley) se sentar e tomar nota. Diego Remus, que lançou em 2008 o blog brasileiro Startupi, afirma que o burburinho está se espalhando. “Todo mundo está perguntando o que os brasileiros estão fazendo… eu poderia começar fazê-lo com eles? Isso é muito inovador”.
Classe C
Na década passada, cerca de 30 milhões de brasileiros venceram a pobreza e ascenderam a uma nova classe média baixa, conhecida como classe C. Equipados com os primeiros computadores das suas famílias, eles estão mergulhando na Internet. Como resultado, o comércio eletrônico está crescendo no Brasil: cerca de 32 milhões de brasileiros efetuaram quase 54 milhões de compras, gastando R$2,6 bilhões em 2011, segundo a E-bit, companhia brasileira de pesquisa de comércio eletrônico. Isto é um representa um aumento de 2010, ano que se registrou 40 milhões de compras online.
O Brasil também é um dos maiores mercados globais de redes sociais: O Facebook já triplicou o número de usuários no ano passado com 36,1 milhões, enquanto o Twitter afirma ter 12,5 milhões, acumulando mais de 40% comparado com o ano passado, segundo a Comscore.
No entanto, alguns críticos afirmam que muitas dos startups no Brasil são sites de comércio que simplesmente adaptam a tecnologia existente ao mercado local. Em um mercado emergente que mistura comércio eletrônico que muda rapidamente, com uma burocracia pesada e altas taxas de juros, as pessoas precisam ser criativas e inovadoras. “Abrir uma empresa e manter os empregados no Brasil é algo muito diferente do que em outros países”, argumenta o Remo.
Sendo assim, os empresários de tecnologia vão fazer o que for preciso. Daí a aparição de Vanossi no Show do Jô Soares. Vanossi sabe que dinheiro a ser investido existe. O Kekanto, um site brasileiro de critica e busca, e o Peixe Urbano, site de compras coletivas, receberam dinheiro de empresas globais. Em outubro de 2011, a Monashees, gestora de fundos brasileira focada em startups de Internet, decidiu investir 70 milhões de dólares no setor doméstico, segundo o jornal The New York Times.
olook
A Monashees investiu na Olookum, uma startup brasileira que usa tecnologia inovadora para vender roupas sob medida; o co-fundador da Olook André Beisert, 32, recusa-se a dizer quanto.
Beisert trabalhou na WebMotors, um site brasileiro de venda de veículos, fez um MBA em Harvard, voltou ao Brasil para trabalhar para a consultora McKinsey, depois em julho de 2011, deixou seu emprego para iniciar a Olook. O site foi lançado em novembro de 2011 e já tem 400.000 usuários cadastrados. “Temos mulheres de todas as classes, principalmente pessoas entre 20 e 30 anos,” diz Beisert.
O site utiliza um questionário ilustrado para construir um perfil do cliente, baseado em sua escolha de cores, estilo e celebridades. O software proprietário consolida as informações para construir um perfil de estilo, diz Beisert.
Os dados – um algoritmo de moda – são então combinados com a opinião da diretora de moda e sócia da Olook, Helen Linhares, para criar uma lista de compras personalizada para cada cliente. Esta é então enviada ao cliente junto com recomendações de bolsas, jóias e sapatos.
“Partimos de dados reais para conhecermos o gosto do cliente e atingirmos a decisão de compra”, diz Beisert. A empresa já vendeu 1,000 itens até agora e tem a aprovação do Remus. “Este é um dos negócios mais inovadores do Brasil.”
Network é a alma do negócio
Marcos Vanossi cresceu em uma pequena cidade do interior de São Paulo. Quando criança, vendia enfeites de carnaval na padaria de seu pai. Ele desenvolveu o seu próprio mecanismo de busca aos 14 anos e tentou aplicá-lo com uso de imagens. Enquanto estudava ciência da computação na Unicamp, uma das melhores universidades técnicas do Brasil, ele desenvolveu seu próprio aplicativo de reconhecimento de imagem.
Vanossi foi apresentado ao Vale do Silício por Bedy Yang, uma brasileira que vive na Califórnia. Ela comanda um grupo de networking para empresários brasileiros de tecnologia chamada Brazil Innovators. Yang levou um grupo de jovens empreendedores brasileiros de Internet – Vanossi incluído – para empresas chaves do Vale do Silício, como o Facebook e a Google. “Essa é uma das coisas mais importantes no Vale do Silício: os eventos de networking”, diz Vanossi. “Pessoas com uma mentalidade semelhante são difíceis de encontrar em São Paulo.” Agora ele se circula entre o Vale do Silício e São Paulo.
O empreendedor aperfeiçoou seu aplicativo em um trabalho acadêmico feito para a Universidade de Viena. O aplicativo constrói histogramas das formas das imagens, usando milhares de pontos para criar um gráfico único. Mas, para seu aplicativo ganhar dinheiro, ele precisa de conteúdo: fotos para ele comparar e reconhecer. Desta forma, se um usuário tiver uma imagem estática de um jogador de futebol, ela pode relacionar a forma da foto com imagens ou vídeos pertencentes a um banco de dados.
“Como podemos resolver esse problema? Um canal de TV tem todos os programas de televisão”, diz Vanossi. “Uma revista, tem um monte de conteúdo.” Por isso, ele está negociando com as grandes empresas brasileiras de mídia e, diz estar prestes a assinar um contrato com uma emissora importante. Se uma emissora usar a Clickpic, os usuários que clicarem em uma imagem serão direcionados ao conteúdo ligado a essa imagem. “É algo que muito útil para as pessoas”, diz ele. “Eu não hesitaria em utilizar este serviço.”
Claro, os empresários enfrentam desafios únicos no Brasil. Alguns segmentos de mercado ainda não são desenvolvidos o suficiente e as startups têm se esforçado para arrecadar fundos. A Tuilix, um site de serviços de recomendação de compras online, fundado por Helder Knidel, 34 anos, um engenheiro de computação com mestrado da UNICAMP e seu sócio Leandro de Castrol, 37 anos, com título de doutorado em análise de dados, ainda está `a procura de financiamento 18 meses após o início do projeto.
Mas Knidel compartilha o otimismo brasileiro que caracteriza a crescente expansão do boom tecnológico do país. “Existe uma grande população querendo comprar e que está começando agora a ter acesso à Internet, em seus primeiros computadores”, diz ele. “Há um grande espaço para ser explorado.”
Foto no alto: Adela Kang/Txchnologist
Dom Phillips mudou-se para São Paulo em 2007 para escrever seu livro “Superstar DJs Here We Go” (“DJs Superstars, Aqui vamos), (Editora Radom House/Ebury 2009). Sua matéria mais recente na Txchecnologist abordou o aumento pré-sal na prospecção de petróleo.


