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Banda Larga Brasil: muito por fazer

Num mundo tão competitivo, o Brasil acaba de perder a liderança no ranking de banda larga móvel na América Latina. De acordo com estudo (PDF) divulgado pela A.T.Kearney e a GSM Association (GSMA), o país caiu duas posições no último ano, ficando atrás de Chile e Argentina em uma série de parâmetros, como cobertura 3G, e-gov mobile e percentual de smartphones em uso. Chile e Argentina – vale dizer – somam 57 milhões de habitantes. Bem menos que os 195 milhões de brasileiros. E ainda não chegamos ao patamar de 30% da população com banda larga – enquanto a média latino-americana fica em 37%.

O Brasil fechou 2011 com 57,8 milhões de acessos à internet via banda larga. Segundo a Associação Brasileira de Telecomunicações (Telebrasil), foi um crescimento de 68% em relação a 2010, com 23,3 milhões de novos pontos registrados no período. O grande destaque ficou por conta do aumento de 99,3% de clientes que usam banda larga móvel, totalizando 41,1 milhões, além dos 16,7 milhões de acessos fixos à banda larga.

Depois de anos de relativo marasmo, esses números não deixam de representar boas notícias. É um sinal, por exemplo, de que estamos investindo em celulares, smartphones, tablets. Mobilidade é o futuro, afinal, e é para lá que vamos nos encaminhando. O problema é que vamos muito lentamente. Segundo levantamento da StatCounter divulgado em fevereiro, o acesso à web por dispositivos móveis, no Brasil, subiu de 2,23% em janeiro de 2011 para 3,52% no mês passado (contra 8,5% da média mundial).

Ao menos podemos comemorar porque a cobertura 3G dobrou por aqui em 2011 – chegando a regiões habitadas por 83% da população. O serviço 3G da Vivo, a maior operadora do país, está presente em 2.526 dos 5.564 municípios brasileiros. Ainda há muito a ser feito, mas os serviços de banda larga estão se espalhando. O problema é quando falta grana para o consumidor. Este é um nó a ser desatado pelo governo e pelos provedores. “A disponibilidade de banda larga não é suficiente. Se o serviço for caro, ninguém vai comprar”, diz Maurício Giusti, consultor da PricewaterhouseCoopers. “Além do preço do acesso, outra barreira é o próprio preço do computador, ou do celular, do tablet”, lembra ele.

É aí que entra outro personagem: o acesso clandestino à rede. Ou seja, o roubo de banda larga. É graças a serviços ilegais como o famigerado GatoNet que a família da empregada doméstica Ana Santos tem acesso à internet via banda larga. Ela paga R$ 50 por mês pelo serviço, amplamente popular na comunidade onde vive, a 40 quilômetros do Centro do Rio. Sua patroa, a engenheira Maria Duarte, paga R$ 65 pelo serviço legalizado, numa área nobre da cidade. Não há cálculos oficiais sobre a presença da pirataria de internet no Brasil, mas há quem diga que ela seja responsável por 40% do total de acessos.

Para evitar essas e outras distorções, o governo lançou, em 2010, o Programa Nacional de Banda Larga (PNBL). A intenção é boa: investir R$ 15 bilhões para levar fibra óptica a todos os municípios do país, criando 90 milhões de novos pontos de banda larga até 2014 – ano em que o Brasil sediará a Copa do Mundo de futebol.

Somente agora, dois anos após seu lançamento, o PNBL começa a sair do papel. Até o fim de fevereiro, 10,2 mil quilômetros de fibra óptica estarão cobrindo 600 municípios. A previsão é de que, até o fim do ano, serão 31 mil quilômetros, presentes em todos os 26 estados do país. Para fazer bonito, o governo pretende fechar até abril os projetos para as 12 cidades que vão receber os jogos da Copa do Mundo. “Existe uma vontade política muito grande por parte do governo”, diz Giusti. “A banda larga está na agenda estratégica da presidente Dilma Rousseff. Espero uns dois anos de crescimento bem forte no setor. Até porque o brasileiro tem essa característica de gostar usar a internet intensivamente”, complementa.

Como o governo ajuda na infraestrutura e baixa impostos na área de Telecom, nada mais justo que querer contrapartidas por parte das operadoras – que, na conta final, é quem vai faturar com a instalação do backbone nacional. Mas as empresas reclamam. Recentemente, a Oi – terceira maior operadora do país – pediu a retirada das metas de qualidade estipuladas pela Anatel, o órgão regulador do setor de telecomunicações brasileiro. Pelo jeito, a Oi acha que o governo está sendo exigente. O ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, rebateu no início de fevereiro, dizendo que o posicionamento da empresa foi totalmente equivocado e que a Anatel não pode voltar atrás nas suas exigências.

O caso mostra que há um probleminha de relacionamento em curso. E o futuro fica meio nebuloso – tanto que as operadoras preferem não se manifestar, por exemplo, em relação ao cenário de 2014, quando a Copa começar e o país estiver, naturalmente, exigindo muito da internet. As empresas dizem apenas que, ano passado, investiram R$ 17,4 bilhões na expansão de suas redes e vão manter o ritmo. Pode ser. No geral, a área de Telecom ficou com 35% dos US$ 16,5 bilhões de investimentos estrangeiros que entraram no país em 2011, o que não deixa de ser signiticativo.

O resumo da ópera é basicamente o seguinte: claro que 23,3 milhões de novos pontos de acesso à rede em alta velocidade não são um número de se jogar fora. Entretanto, num país com 195 milhões de habitantes, ainda é pouco. Sinal de que há uma miopia generalizada, desconhecendo, por exemplo, que a adoção de banda larga nos EUA foi responsável pelo acréscimo de 1 a 1,4 ponto percentual à taxa de crescimento de empregos entre 1998 e 2002. E também incentivou o surgimento de novas empresas, como diz relatório da PwC (pdf).

Mesmo na Alemanha, que ainda tem escapado com saúde da crise européia, a previsão é de que, entre 2010 e 2020, o investimento de US$ 51 bilhões em banda larga responda pela geração de 968 mil empregos.

Será que vamos ver resultados semelhantes também no Brasil?

Resta, como sempre, a torcida.

Foto no alto: @prochno (Flickr – usuário lidifaria)

Nelson Vasconcelos é jornalista e fotógrafo. Trabalhou no jornal O Globo entre 1995 e 2011, onde  editor do suplemento e do site de tecnologia do jornal. Durante 11 anos, assinou uma coluna sobre cultura digital e negócios. Ganhou vários prêmios de jornalismo, como o Embratel (duas vezes) e o Ayrton Senna, por grandes reportagens sobre internet e inclusão digital no país.

 

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